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por Luciana Saddi

 

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Escrito por Luciana Saddi às 21h21

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O luto

 

 

O luto é um estado psíquico tremendamente doloroso, é associado à morte e as perdas. Nossa sociedade não parece perceber que o trabalho de luto é necessário e importante e se utiliza da negação para lidar com o luto e com a dor. É como se não tivéssemos um passe livre para lamentar, para falar e até para enlouquecer e depois se refazer.

 

Para se ter uma ideia da importância do luto e da morte na vida humana, lembro que as urnas funerárias e os rituais de enterramento datam dos primórdios do Homem e são anteriores ao tabu do incesto. Para falarmos sobre o luto, convidei a psicanalista Leda Herrmann.

 

Luciana: Como se dá o luto?

 

Leda: O luto é um trabalho que acompanha a elaboração de perdas. Trabalho de luto, considerava Freud. Perdas experimentamos quotidianamente, pois a vida humana implica relações com o outro e conosco mesmos. Se estou lendo um agradável romance, meu deleite vai durar até o fim da leitura. Acabado o livro, dele tenho que me separar, e o meu deleite só pode permanecer como lembrança. Terminada a leitura perco o livro e a relação de deleite que vivia. Isto é, a relação com o livro é abandonada e a elaboração dessa perda atira-me em outra relação, começo um outro livro para substituir o perdido, por exemplo. Um novo livro é uma forma de viver a nostalgia de não mais poder contar com a página seguinte do antigo. Convivemos com o luto enquanto convivemos com a vida. Nas perdas de relações mais significativas, como a morte de um ente querido, o trabalho de luto é mais intenso e penoso.

 

Luciana: Há diferentes formas de reação às perdas? Depende do vínculo que tínhamos com quem morreu?

 

Leda: Claro que há, apesar de o ponto de partida dessa reação, ou da elaboração do luto, ser sempre a nostalgia do objeto perdido. Todo luto implica lidar com o vazio deixado pelo objeto perdido. Esse vazio nos remete à representação de nossa impossibilidade de uma satisfação autobastante, isto é, de não podemos ser o objeto total de nossa própria satisfação, o que se constitui também em um luto revivido a cada troca de objeto de relação.

 

A perda por morte implica reconhecermos a inevitabilidade do fim e contra isso lutamos, para não nos atentarmos à representação de nossa própria finitude. Quanto mais intenso for o vínculo emocional que nos ligava com quem morreu, mais dolorosa é essa passagem pela nostalgia do objeto perdido. Pode implicar uma negação da dor pela perda, negação que se atualiza em reações maníacas como atirar-se ao trabalho perseguindo situações de reconhecimento pessoal ou, em outro extremo, um abandono de si na perda, na identificação com o ser querido, levando a uma agudização da depressão em estados melancólicos, que nada mais são do que tentativas vãs de reviver quem já não mais existe. No entanto é imprescindível que se preserve um espaço para viver a dor da perda na elaboração do luto, espaço que no mundo em que vivemos está cada vez mais difícil de ser preservado.

 

Luciana: Parece que o luto virou tabu, ninguém mais pode ficar “mal” porque perdeu um ente querido, o que acontece com nossa sociedade?

 

Leda: Concordo com você. Ficar “mal”, seja porque motivo for, contraria a exigência de excelência de desempenho que nos é imposta pela sociedade ocidental – temos que ser eternamente jovens, bonitos e bem sucedidos. Essa exigência nos nega o direito à tristeza e leva de roldão o espaço necessário para viver a dor da perda. É mais fácil, e consentâneo com o padrão de êxito, beleza e juventude que impera, escutarmos de amigos que a vida continua, que devemos nos distrair, do que contarmos com sua disponibilidade para nos ouvir sobre nossa dor. Tabu é proibição. Parece que no mundo em que vivemos foi decretada à proibição ao luto pela perda de um ente querido.

 

Luciana: Muitos dizem que a dor ameniza com o tempo, em minha experiência piora muito, até acalmar pode levar anos. Como você percebe isso?

 

Leda: Justamente pela perda do direito à tristeza com a consequente perda do espaço para viver a dor, há que se criar formas substitutivas de se lidar com as situações inevitáveis de luto, pois continuamos morrendo, apesar da promessa de eternidade que os out doors de propaganda espalhados pelas cidades nos prometem.

 

Crenças como essas, de que a dor ameniza com o tempo, generalizam-se, mas é preciso levar em conta que o tempo da amenização varia de acordo com a qualidade da perda e com a potencialização de dor que essa perda impõe.  Como você testemunha, algumas dores intensificam-se no período que sucede imediatamente à perda e têm que ser vividas assim. Não é o tempo o fator que conta para sua diminuição, mas o lento trabalho de elaboração do luto pela perda desse objeto tão importante na vida de relações de quem o perde.

 

Luciana: Há palavras para dizer para alguém que enfrentou a morte de uma pessoa fundamental em sua vida?

 

Leda: Parece-me que muito mais que palavras, conta a possibilidade de compartilhar com amigos próximos cumplicidade e permissão para viver a dor da perda, sem a exigência de sua rápida diminuição. Quem enfrenta a morte de alguém fundamental em sua vida precisa encontrar no outro a permissão para que a nostalgia de perda aflore e o machuque. Sem sofrimento não é possível a elaboração do luto pela perda de um filho ou do companheiro de uma vida.

 

Luciana: O que significa superar o luto?

 

Leda: Permitir que a ausência imposta pela perda possa transformar-se em presença ausente, experimentada sem a dor dilacerante dos primeiros tempos.

Escrito por Luciana Saddi às 11h08

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Radical singularidade

 

 

Internauta: Quando uma pessoa se sente em posição inferior e se conforma com a situação, mesmo sabendo que pode ser e produzir mais...não é vaidosa nem perfeccionista, essa pessoa não estaria numa condição análoga à depressão?

 

Luciana: Inúmeras causas podem gerar os sintomas depressivos. A observação minuciosa discrimina os diferentes tipos de depressão e investiga caso a caso.

 

Há várias razões para que alguém se conforme ou aprecie ocupar uma posição inferior ou mediana. Portanto, é difícil generalizar. Mesmo assim há alguns fatores que não devem ser menosprezados em boa parte dos sintomas depressivos.

 

 

 

a)    Culpa – o sentimento de culpa leva o sujeito a buscar o fracasso.  O êxito pode ser assustador, é comum não suportarmos os triunfos ou jogarmos as vitórias fora. O sentimento de culpa opera silenciosamente contra as conquistas.

 

b)    Medo – desejo intenso combinado ao medo de fracassar levam a auto diminuição e ao menosprezo. Antes de iniciar a conquista a pessoa já afirma para si que não conseguirá, justificando o fracasso por auto desqualificação.

 

c)     Masoquismo moral – prazer em sofrer humilhação e maus tratos. Busca-se posições inferiores, contenta-se com muito pouco e não luta por obter algo melhor para si.

 

d)    Perdas – dificuldade em lidar com separações, perdas e morte. Ou você enterra o objeto perdido ou se enterra junto com ele.

 

e)    Pouco investimento amoroso por parte de pais e cuidadores.

 

 

Esses fatores se combinam com pesos e medidas diferentes. Há outros que serão descobertos na situação clínica. A psicanálise procura ver cada paciente em sua radical singularidade.

 

 

Não, não é Cansaço...

 

Não, não é cansaço... 
É uma quantidade de desilusão 
Que se me entranha na espécie de pensar, 
E um domingo às avessas 
Do sentimento, 
Um feriado passado no abismo... 

Não, cansaço não é... 
É eu estar existindo 
E também o mundo, 
Com tudo aquilo que contém, 
Como tudo aquilo que nele se desdobra 
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

Não. cansaço por quê? 
É uma sensação abstrata 
Da vida concreta — 
Qualquer coisa como um grito 
Por dar, 
Qualquer coisa como uma angústia 
Por sofrer, 
Ou por sofrer completamente, 
Ou por sofrer como... 
Sim, ou por sofrer como... 
Isso mesmo, como... 

Como quê?... 
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 

(Ai, cegos que cantam na rua, 
Que formidável realejo 
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) 

Porque oiço, vejo. 
Confesso: é cansaço!... 

Álvaro de Campos, in.: Poemas 
Heterônimo de Fernando Pessoa

 

Poema escolhido por Ana Tanis, psicóloga, bacharel em letras e curadora de poesia desse blog.

,
No livro, O tempo e o cão, de Maria Rita Kehl a atualidade das depressões é investigada rigorosamente, bem como as condições sociais de sua transmissão.

Escrito por Luciana Saddi às 11h05

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Adolescentes abrem mão da privacidade e dividem senhas na web

de RODRIGO LEVINO EDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA" com uma pequena participação minha.

 

Segue:

http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/1043688-adolescentes-abrem-mao-da-privacidade-e-dividem-senhas-na-web.shtml

 

Escrito por Luciana Saddi às 16h39

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Dietas são frustrantes

Fale Comigo na Rádio Folha

Os problemas alimentares vêm aumentando nas últimas décadas. Pesquisas recentes revelam que a obesidade já se tornou epidemia no mundo. Neste cenário, os quadros de anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação continuam crescendo.

O problema, que há anos afeta mulheres jovens, agora também afeta homens adultos.

Diante de um prato de comida, as pessoas parecem perdidas e culpadas. Contam calorias e comentam sobre o potencial nocivo dos alimentos. O comer não está mais ligado aos sinais de fome e de saciedade. Tornou-se difícil saborear os alimentos.

O medo de engordar, o sentimento de inferioridade causado pela aparência, e a frustração causada pelas dietas são marcas da contemporaneidade.

Querem saber mais? Ouçam o podcast:

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/1043476-luciana-saddi-dietas-sao-frustrantes.shtml

Escrito por Luciana Saddi às 11h16

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PERFIL

falecomigo Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Foi titular da coluna Fale com Ela, publicada na Revista da Folha.


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