Fale Comigo

por Luciana Saddi

 

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Escrito por Luciana Saddi às 21h21

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O luto

 

 

O luto é um estado psíquico tremendamente doloroso, é associado à morte e as perdas. Nossa sociedade não parece perceber que o trabalho de luto é necessário e importante e se utiliza da negação para lidar com o luto e com a dor. É como se não tivéssemos um passe livre para lamentar, para falar e até para enlouquecer e depois se refazer.

 

Para se ter uma ideia da importância do luto e da morte na vida humana, lembro que as urnas funerárias e os rituais de enterramento datam dos primórdios do Homem e são anteriores ao tabu do incesto. Para falarmos sobre o luto, convidei a psicanalista Leda Herrmann.

 

Luciana: Como se dá o luto?

 

Leda: O luto é um trabalho que acompanha a elaboração de perdas. Trabalho de luto, considerava Freud. Perdas experimentamos quotidianamente, pois a vida humana implica relações com o outro e conosco mesmos. Se estou lendo um agradável romance, meu deleite vai durar até o fim da leitura. Acabado o livro, dele tenho que me separar, e o meu deleite só pode permanecer como lembrança. Terminada a leitura perco o livro e a relação de deleite que vivia. Isto é, a relação com o livro é abandonada e a elaboração dessa perda atira-me em outra relação, começo um outro livro para substituir o perdido, por exemplo. Um novo livro é uma forma de viver a nostalgia de não mais poder contar com a página seguinte do antigo. Convivemos com o luto enquanto convivemos com a vida. Nas perdas de relações mais significativas, como a morte de um ente querido, o trabalho de luto é mais intenso e penoso.

 

Luciana: Há diferentes formas de reação às perdas? Depende do vínculo que tínhamos com quem morreu?

 

Leda: Claro que há, apesar de o ponto de partida dessa reação, ou da elaboração do luto, ser sempre a nostalgia do objeto perdido. Todo luto implica lidar com o vazio deixado pelo objeto perdido. Esse vazio nos remete à representação de nossa impossibilidade de uma satisfação autobastante, isto é, de não podemos ser o objeto total de nossa própria satisfação, o que se constitui também em um luto revivido a cada troca de objeto de relação.

 

A perda por morte implica reconhecermos a inevitabilidade do fim e contra isso lutamos, para não nos atentarmos à representação de nossa própria finitude. Quanto mais intenso for o vínculo emocional que nos ligava com quem morreu, mais dolorosa é essa passagem pela nostalgia do objeto perdido. Pode implicar uma negação da dor pela perda, negação que se atualiza em reações maníacas como atirar-se ao trabalho perseguindo situações de reconhecimento pessoal ou, em outro extremo, um abandono de si na perda, na identificação com o ser querido, levando a uma agudização da depressão em estados melancólicos, que nada mais são do que tentativas vãs de reviver quem já não mais existe. No entanto é imprescindível que se preserve um espaço para viver a dor da perda na elaboração do luto, espaço que no mundo em que vivemos está cada vez mais difícil de ser preservado.

 

Luciana: Parece que o luto virou tabu, ninguém mais pode ficar “mal” porque perdeu um ente querido, o que acontece com nossa sociedade?

 

Leda: Concordo com você. Ficar “mal”, seja porque motivo for, contraria a exigência de excelência de desempenho que nos é imposta pela sociedade ocidental – temos que ser eternamente jovens, bonitos e bem sucedidos. Essa exigência nos nega o direito à tristeza e leva de roldão o espaço necessário para viver a dor da perda. É mais fácil, e consentâneo com o padrão de êxito, beleza e juventude que impera, escutarmos de amigos que a vida continua, que devemos nos distrair, do que contarmos com sua disponibilidade para nos ouvir sobre nossa dor. Tabu é proibição. Parece que no mundo em que vivemos foi decretada à proibição ao luto pela perda de um ente querido.

 

Luciana: Muitos dizem que a dor ameniza com o tempo, em minha experiência piora muito, até acalmar pode levar anos. Como você percebe isso?

 

Leda: Justamente pela perda do direito à tristeza com a consequente perda do espaço para viver a dor, há que se criar formas substitutivas de se lidar com as situações inevitáveis de luto, pois continuamos morrendo, apesar da promessa de eternidade que os out doors de propaganda espalhados pelas cidades nos prometem.

 

Crenças como essas, de que a dor ameniza com o tempo, generalizam-se, mas é preciso levar em conta que o tempo da amenização varia de acordo com a qualidade da perda e com a potencialização de dor que essa perda impõe.  Como você testemunha, algumas dores intensificam-se no período que sucede imediatamente à perda e têm que ser vividas assim. Não é o tempo o fator que conta para sua diminuição, mas o lento trabalho de elaboração do luto pela perda desse objeto tão importante na vida de relações de quem o perde.

 

Luciana: Há palavras para dizer para alguém que enfrentou a morte de uma pessoa fundamental em sua vida?

 

Leda: Parece-me que muito mais que palavras, conta a possibilidade de compartilhar com amigos próximos cumplicidade e permissão para viver a dor da perda, sem a exigência de sua rápida diminuição. Quem enfrenta a morte de alguém fundamental em sua vida precisa encontrar no outro a permissão para que a nostalgia de perda aflore e o machuque. Sem sofrimento não é possível a elaboração do luto pela perda de um filho ou do companheiro de uma vida.

 

Luciana: O que significa superar o luto?

 

Leda: Permitir que a ausência imposta pela perda possa transformar-se em presença ausente, experimentada sem a dor dilacerante dos primeiros tempos.

Escrito por Luciana Saddi às 11h08

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Radical singularidade

 

 

Internauta: Quando uma pessoa se sente em posição inferior e se conforma com a situação, mesmo sabendo que pode ser e produzir mais...não é vaidosa nem perfeccionista, essa pessoa não estaria numa condição análoga à depressão?

 

Luciana: Inúmeras causas podem gerar os sintomas depressivos. A observação minuciosa discrimina os diferentes tipos de depressão e investiga caso a caso.

 

Há várias razões para que alguém se conforme ou aprecie ocupar uma posição inferior ou mediana. Portanto, é difícil generalizar. Mesmo assim há alguns fatores que não devem ser menosprezados em boa parte dos sintomas depressivos.

 

 

 

a)    Culpa – o sentimento de culpa leva o sujeito a buscar o fracasso.  O êxito pode ser assustador, é comum não suportarmos os triunfos ou jogarmos as vitórias fora. O sentimento de culpa opera silenciosamente contra as conquistas.

 

b)    Medo – desejo intenso combinado ao medo de fracassar levam a auto diminuição e ao menosprezo. Antes de iniciar a conquista a pessoa já afirma para si que não conseguirá, justificando o fracasso por auto desqualificação.

 

c)     Masoquismo moral – prazer em sofrer humilhação e maus tratos. Busca-se posições inferiores, contenta-se com muito pouco e não luta por obter algo melhor para si.

 

d)    Perdas – dificuldade em lidar com separações, perdas e morte. Ou você enterra o objeto perdido ou se enterra junto com ele.

 

e)    Pouco investimento amoroso por parte de pais e cuidadores.

 

 

Esses fatores se combinam com pesos e medidas diferentes. Há outros que serão descobertos na situação clínica. A psicanálise procura ver cada paciente em sua radical singularidade.

 

 

Não, não é Cansaço...

 

Não, não é cansaço... 
É uma quantidade de desilusão 
Que se me entranha na espécie de pensar, 
E um domingo às avessas 
Do sentimento, 
Um feriado passado no abismo... 

Não, cansaço não é... 
É eu estar existindo 
E também o mundo, 
Com tudo aquilo que contém, 
Como tudo aquilo que nele se desdobra 
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

Não. cansaço por quê? 
É uma sensação abstrata 
Da vida concreta — 
Qualquer coisa como um grito 
Por dar, 
Qualquer coisa como uma angústia 
Por sofrer, 
Ou por sofrer completamente, 
Ou por sofrer como... 
Sim, ou por sofrer como... 
Isso mesmo, como... 

Como quê?... 
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 

(Ai, cegos que cantam na rua, 
Que formidável realejo 
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) 

Porque oiço, vejo. 
Confesso: é cansaço!... 

Álvaro de Campos, in.: Poemas 
Heterônimo de Fernando Pessoa

 

Poema escolhido por Ana Tanis, psicóloga, bacharel em letras e curadora de poesia desse blog.

,
No livro, O tempo e o cão, de Maria Rita Kehl a atualidade das depressões é investigada rigorosamente, bem como as condições sociais de sua transmissão.

Escrito por Luciana Saddi às 11h05

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Adolescentes abrem mão da privacidade e dividem senhas na web

de RODRIGO LEVINO EDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA" com uma pequena participação minha.

 

Segue:

http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/1043688-adolescentes-abrem-mao-da-privacidade-e-dividem-senhas-na-web.shtml

 

Escrito por Luciana Saddi às 16h39

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Dietas são frustrantes

Fale Comigo na Rádio Folha

Os problemas alimentares vêm aumentando nas últimas décadas. Pesquisas recentes revelam que a obesidade já se tornou epidemia no mundo. Neste cenário, os quadros de anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação continuam crescendo.

O problema, que há anos afeta mulheres jovens, agora também afeta homens adultos.

Diante de um prato de comida, as pessoas parecem perdidas e culpadas. Contam calorias e comentam sobre o potencial nocivo dos alimentos. O comer não está mais ligado aos sinais de fome e de saciedade. Tornou-se difícil saborear os alimentos.

O medo de engordar, o sentimento de inferioridade causado pela aparência, e a frustração causada pelas dietas são marcas da contemporaneidade.

Querem saber mais? Ouçam o podcast:

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/1043476-luciana-saddi-dietas-sao-frustrantes.shtml

Escrito por Luciana Saddi às 11h16

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Traído pela raiva

 

 

Internauta: descobri que minha mulher me traía com um colega de trabalho dela. Doze meses se passaram e ainda me pego – diariamente – nutrindo um sentimento de raiva/ódio/frustração sobre esse episódio. É como se o sentimento de amor fosse afogado diante disso. Sinto que a amo, mas sinto raiva quando lembro e me paraliso em meio às mágoas. Sinto raiva do outro cidadão, mas acabo transferindo involuntariamente para ela e para o nosso relacionamento. Reconheço minha parcela de culpa, mas é bem difícil domar as fantasias que a mente me prega. Quero voltar a ser feliz de novo. Tem jeito ou meu caso é perdido?

 

Luciana: As coisas não acontecem de maneira isolada. Uma coisa leva a outra e assim por diante. Essa repercussão ocorre como uma trama de tecido cheio de nós – um fio puxa o outro. Há nós cegos e há os mais fáceis de desatar.

 

Muitos nós se formaram e você não consegue evitar sentir o que sente. Seria mais fácil ter apenas um nó cego em relação ao cidadão, mas os fios não se comportam dessa maneira menos ainda os sentimentos, que você obviamente não controla. É preciso aceitar a complexidade da situação. A raiva tende a crescer quando a gente a nega. Ser traído é ruim. As consequências desse acontecimento parecem ser mais pesadas ainda.

 

O perdão é um sentimento raro e difícil. É diferente de passar uma borracha e apagar os acontecimentos. É um ato de amor, de generosidade e de reconhecimento de nossas limitações – o oposto da vaidade. Ao perdoar o outro a gente se perdoa, porque compreende que pode incorrer nos mesmos erros.

 

O perdão também pode ocorrer por soberba, quando nos sentimos superiores a quem nos feriu – esse tipo de perdão é mais frequente, assemelha-se a uma vingança disfarçada.

 

Perdoar não te leva a viver como no passado, um tempo nostálgico onde o problema não existia – na verdade o problema já existia e levou ao afastamento do casal. Procure entender em quais condições a traição se deu. Entender ajuda a perdoar e pode te levar a um novo casamento com sua mulher. Mas lembre-se que nem ela nem você são os mesmos do passado.

 

Não sei se há uma raiz comum para as palavras perder e perdoar, mas se não há, deveria haver. Pois quem aceita a perda e assimila o golpe se torna mais apto a continuar.

 

 

Gota d'água

 

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água....

Chico Buarque

 

http://www.youtube.com/watch?v=cUSXdx05Yeo

 

 

 

Poema e música escolhidos por Ana Tanis, psicóloga, bacharel em letras e curadora de poesia desse blog.

,
Orientação dos gatos de Julio Cortázar. O tema dos contos desse livro é o casal e a cumplicidade, inclusive nas traições.

Escrito por Luciana Saddi às 11h20

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Autoestima

 

O termo significa: amor próprio. Parece simples, não? Porém a coisa se torna mais complicada quando nos perguntamos como obtê-la. 

E, se já era difícil gostar de si mesmo quando a gente não precisava ser perfeito em tantas coisas ao mesmo tempo, imagine agora, em que vivemos oprimidos por exigências e injunções cada vez mais complexas e quase impossíveis de realizar. Gostar de si mesmo nos dias de hoje se tornou algo mais difícil ainda de ser alcançado.

Para conversarmos sobre autoestima convidei a psicanalista e escritora Sylvia Loeb*.

 

Luciana: O que é autoestima?

Sylvia: Podemos definir que autoestima é a opinião que temos de nós próprios.

Por exemplo: se você se acha inteligente, ou bonito ou simpático, competente, generoso, bondoso ou ao contrário, burro, feio, incompetente, fracassado.

Os termos autoestima, autoconfiança, autoaceitação, autoimagem são todos mais ou menos sinônimos, indicando a avaliação que fazemos de nós mesmos.

De modo geral falamos em baixa autoestima, ou autoestima elevada.

Luciana: Será que poderíamos pensar que uma pessoa com excesso de auto estima estaria compensando um sentimento subjetivo de inadequação?

Sylvia: Sim, podemos pensar isso; conhecemos pessoas que mostram excesso de segurança, autoestima elevada porém que à menor contrariedade ou dificuldade, desmoronam daquele lugar mostrando fragilidade, sentimentos de menos valia

Luciana: Poderíamos também nos perguntar se uma pessoa com excesso de crítica em relação a si mesma não teria uma imagem de si muito idealizada?

Sylvia: Sem dúvida, excesso de autocrítica necessariamente não implica em modéstia, pelo contrário, pode implicar em muita vaidade. “Eu deveria ser o mais competente, o mais bonito, o mais forte”. Diante do tamanho desta exigência resta muito pouco a fazer; todas as realizações possíveis ficam diminuídas diante de uma idealização exagerada.

Em psicanálise, falamos em narcisissmo, outro modo de nomear a autoestima. O termo narcisismo vem por referência ao mito de Narciso, é o amor pela imagem de si mesmo.

Na fase inicial de nossas vidas, quando crianças, uma dose alta de narcisismo é verificada. A criancinha é egoísta, suas necessidades e desejos são prementes e urgentes, elas têm pouco tolerância às frustrações.

Em outras palavras, a criança se sente o centro do mundo.Todo seu afeto está dirigido para si mesma, sobrando muito pouco para o que se encontra fora dela.

Na medida em que vamos crescendo o chamado da realidade nos faz cair da posição de reinado absoluto. As frustrações surgem na figura de outros irmãos, ou do papai e da mamãe que talvez já não nos achem tão absolutamente maravilhosos.

Isso é importante, doloroso, mas estruturante de uma personalidade mais amadurecida, que vai aprendendo, a duras penas, que a vida e o mundo não obedecem magicamente aos nossos desejos.

O afeto que antes era dirigido mais para si encontra outros caminhos de expressão, podendo ampliar sua manifestação para fora, para os outros, para o mundo.

Luciana: Existe o Narcisismo saudável?

Sylvia: Sim, e implica em sabermos de nós, em apreciarmos nossas qualidades e tolerarmos nossos defeitos. Implica em tratarmos bem de nossa saúde, de nossa vaidade, de nossas necessidades; de realizarmos tarefas que nos dêem prazer e bem estar; implica em enxergar os outros com sua necessidades e desejos; em encontrarmos companheiros de vida que nos valorizem e com quem possamos compartilhar prazeres e dificuldades.

Por outro lado, Narcisismo exarcebado implica em excesso de confiança, em geral acompanhado por certo desprezo pelos outros. O mundo deve girar em torno deste ser que se acha privilegiado.

Todos deveriam servi-lo, sua vontade é uma ordem. Encontramos adultos neste modo de funcionamento: verdadeiros bebês, egoístas e autocentrados, que estabelecem uma relação pobre com os outros, a quem desconsideram. É como se tivesse havido uma parada no desenvolvimento do sujeito, como se ele estivesse fixado num momento de desenvolvimento infantil.

Encontramos dezenas de pessoas assim: homens poderosíssimos com seus carrões atropelando e mesmo matando pessoas. Ajudados pelo álcool ou por algum outro aditivo, estão acima do bem e do mal com seus objetos de poder.

Mulheres plastificadas, onde a imagem que projetam de si são pura fachada: riqueza, beleza autosuficiência, juventude eterna. E assim vemos na mídia, na rua, nos shoppings verdadeiras Barbies de silicone, escravas de uma imagem que necessitam preservar a qualquer preço, resultando muitas vezes em figuras patéticas.

Personalidades imaturas que podem reagir, ao que sentem como insulto e humilhação, de forma violenta. Muitos assassinatos e ataques são cometidos em resposta a supostos golpes contra a autoestima, os chamados crimes de honra!

Gangues de rua possuem opiniões favoráveis sobre si mesmas e recorrem à violência quando estas avaliações são contestadas. Bullies de "playground" consideram-se superiores às outras crianças; baixa autoestima é encontrada entre as vítimas dos bullies, não entre os próprios bullies. Grupos violentos têm um sistema de crenças que enfatizam sua superioridade sobre os demais. 

Nestes casos não podemos mais falar em Autoestima elevada.

São casos graves de narcisismo, onde a imagem tomou conta do ser.

 Luciana: E a baixa Autoestima? Há como transformá-la em amor próprio?

Sylvia: Na medida em que a pessoa possa exigir menos de si, tenha uma visão menos idealizada de como deve ser, de como se comportar, enfim de estar no mundo, sim, é possível transformar uma crítica muito severa em relação a si mesma em maior aceitação dos limites, das dificuldades, dos tropeços que a vida nos causa.

 

* Sylvia Loeb é autora dos livros: Contos do divã: pulsão de morte... e outras histórias (Ateliê Editorial) e Amores e tropeços (terceiro nome).

 

 

 

Escrito por Luciana Saddi às 10h59

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Como entender um adolescente

Fale Comigo na Rádio Folha

A adolescência pode ser entendida como uma longa crise marcada pelo trabalho de construção da identidade.

É neste período em que a construção de um novo modo de ser - fora do campo da proteção familiar - está em jogo. Exigências crescentes no âmbito social  pressionam o jovem, e o temor de não corresponder às expectativas aumenta.

Além disso, a sexualidade passa a ser um desafio. Conquistar esse novo corpo e se responsabilizar por ele é uma tarefa árdua e assustadora. Entram em cena novas formas de relação: amizade, namoro e sexo passam a fazer parte do repertório cotidiano, impondo questionamentos.

Querem saber mais? Ouçam o podcast na Rádio Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/1041010-luciana-saddi-como-entender-um-adolescente.shtml

Escrito por Luciana Saddi às 18h23

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Correnteza – Teatro

Quero apresentar a vocês o espetáculo teatral, Correnteza, e o texto que Mauricio Paroni de Castro escreveu sobre esse espetáculo.

Acompanho e admiro o trabalho do diretor e dramaturgo Mauricio Paroni de Castro. Estamos trabalhando numa peça a partir de meus livros e desse blog há algum tempo. Vejam o teaser da peça Fale Comigo.

 

 http://vimeo.com/33247162   

 

 

 

A Idéia Forte de Correnteza

 

A idéia forte foi criar um lugar mental num ambiente concreto onde se situa o publico. Dois Mestres foram importantíssimos para isso. Explico onde agiram em nosso espaço mental.

  • Tive, por cerca de um mês, o imenso privilégio conviver com Tadeusz Kantor na Escola de Arte Dramática de Milão, onde ministrou as suas lições milanesas. Pude ouvir diretamente dele: “O espaço da vida é o espaço da arte; ambos confundem-se, compenetram-se e dividem um destino comum; A ‘quarta parede’ não tem sentido porque a necessidade da obra teatral reside nela própria; o espetáculo acontece não para alguém, mas na presença de alguém; atores não podem fingir uma personagem ou representar um texto; o drama e a vida coincidem na criação de um espetáculo-obra de arte.      
  • Fui aluno e assistente por duas vezes do genial diretor belga Thierry Salmon, morto num acidente de automóvel em 1998 muito jovem, e infelizmente quase desconhecido no Brasil: “Peço ao espectador para fazer um esforço; por exemplo, deixo buracos nas construções para que quem assista possa neles investir. [...] Prefiro eu o espectador trace um percurso no espetáculo, que dois espectadores não vejam a mesa coisa. O teatro é um lugar de resistência, um lugar que permite que se viva diferentemente.”
  • Seguindo as intuições acima transcritas, fizemos o ator recordar-se do texto no mesmo instante da representação (e coincidente com ela), o que contextualiza no presente a estória que conta. A esta estória se acavalam os contos do pai, do avô e do filho. Portanto, os versos de Gabriela Mellão são recordados e vividos ao mesmo tempo, enquanto verso (se fosse pintura, caberia mencionar: desenho) e enquanto emoção (ainda, se fosse pintura, caberia mencionar: cor) diante do público, não necessariamente para o publico.
  • Há também uma comunicação que liga a nível pessoal o ator, o diretor e o autor, que se dirigem diretamente ao espectador. Nenhuma ingênua e apelativa interatividade. O nosso espectador é visita e intimamente criativa das visões totalizantes encabeçadas pelos versos de Gabriela. Esse nível de comunicação dita a extrema simplicidade da cena, além da interpretação hiper realista utilizada. Criamos uma forma que se assemelha aos tradicionais benshi do cinema mudo japonês.  (O benshi  - “homem que fala” - ficava ao lado da tela e sua narração era teatral. Freqüentemente interagia verbalmente com as personagens do filme narrado. Criada nas tradições  Kabuki e Noh,  essas narrações e comentários eram muito importantes na experiência de se assistir ao cinema mudo japonês.).  Resta replicarmos quotidianamente, aqui e agora, um enredo transbordante de drama, vida, destinos, com um final que ecoa a alma das personagens na mesma alma de quem o assiste.  

 

Mauricio Paroni de Castro

 

Texto de Gabriela Mellão

Direção e composição cênica de Maurício Paroni de Castro

Interpretação de Alvise Camozzi

Música de Dimitrij Shostakovitch

Vídeo e fotos: Bruno Nicko | Astronauta Filmes

Fotos divulgação: Ana Fuccia

Operação de luz e contrarregragem: Pedro Castagna

Confecção cenográfica: Sara Gassal e Millonas

Assistentes de direção: Julia Abs e Pedro Barreiro

Assistente de produção: Sylvia Soares

Direção de produção: Rachel Brumana | Substância Produções Artísticas

Concepção: Atelier de Manufatura Suspeita e Substância Produções Artísticas

 

Classificação etária: 14 anos

 

SESC Consolação - Espaço Beta

de 2 de Fevereiro a 3 de março de 2012 – Quintas e sextas, 21 horas

rua Dr. Vila Nova, 245 
Vila Buarque 
telefone: 11 3234-3000
 

Escrito por Luciana Saddi às 18h19

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Desordem e estranhamento

 

Internauta: Meu sono é muito bom e quase nunca me lembro do que sonhei. Porém, recentemente, passei a ter sonhos nos quais tinha a impressão de perder o controle. Ex: eu descia uma rampa, e tinha a sensação de que ia escorregar, perdia o controle das pernas; em outro sonho eu estava num balanço e me empurravam tanto que eu tinha medo de cair; em outro eu entrava num carro para dirigi-lo, sem saber. Por que este tipo de adrenalina nos sonhos?

 

Luciana: os sonhos são como portas para o inconsciente, revelam sobre nós mais do que aguentamos, comumente, conhecer.

 

O sonhar demonstra haver um processo fora do controle da consciência - independente do conteúdo do sonho. Por isso, causa desordem e estranhamento. O esquecimento dos sonhos pode funcionar como uma defesa contra entrarmos em contato com o que é desconhecido em nós.

 

É possível que a sensação de perda de controle e de desastre iminente que você relata aponte para alguma problemática que está vivendo no momento.

 

 

 

ela se despe no paraíso

de sua memória

ela desconhece o feroz destino

de suas visões

ela tem medo de não saber nomear

o que não existe

 

Alejandra Pizarnik

 

Poema escolhido e traduzido por Ana Tanis, psicóloga, bacharel em letras e curadora de poesia desse blog

,
Quando Fala o Coração, filme de Alfred Hitchcock (1945), com Ingrid Bergman e Gregory Peck. O médico Edwardes é o recém contratado diretor de uma clínica psiquiátrica. Dra. Constance, psiquiatra do local, percebe o comportamento estranho do novo chefe. Psicanálise revelando enigmas e segredos. Cenários oníricos criados por Salvador Dalí.

Escrito por Luciana Saddi às 11h12

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A Medicação Psiquiátrica na Infância e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

 

 

Nos últimos 10 anos observamos um considerável aumento do uso de medicação psiquiátrica para crianças. Também observamos surgir novos quadros diagnósticos como hiperatividade e déficit de atenção. Para falarmos sobre esse tema convidamos a Dra. Maria Thereza de Barros França, psiquiatra, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e psicanalista de crianças e adolescentes pela Associação Psicanalítica Internacional.

 

 

Luciana: Por que essa onda de medicar crianças com remédios psiquiátricos, o que mudou nos últimos 10 ou 15 anos?  Quais os avanços nessa área? Há retrocessos?

 

Dra. Thereza: Hoje existe uma gama enorme de antidepressivos. Existem novos anti-psicóticos com menos efeitos colaterais que os mais antigos. Muitos anticonvulsivantes são utilizados como estabilizadores de humor. O uso de ansiolíticos tem sido substituído pelos anti-depressivos, pelo seu efeito de diminuir a ansiedade e há medicações que provocam alívio imediato para crises de ansiedade. Estão a nossa disposição.

 

Do meu ponto de vista o que podemos considerar como retrocesso é a ilusão de que escalas, tabelas, ou mesmo um diagnóstico psiquiátrico - que na verdade tem a ver com os sintomas - nos dão a compreensão do que se passa com uma pessoa, no seu mundo interno.

 

Luciana: Em sua experiência, quais quadros respondem melhor a medicação ou isso não existe e varia de pessoa para pessoa?

 

Dra. Thereza: Evidentemente existem as variações individuais, porém as crianças com quadro de agitação respondem bem a tranquilizantes- níveis insuportáveis de ansiedade podem ser controlados com medicação. Um antidepressivo ajuda a conviver melhor com sentimentos depressivos.

 

Luciana: Afinal, o remédio trata o que numa pessoa?

 

Dra. Thereza: O remédio trata os sintomas; por exemplo, o sintoma de agitação – temos que pensar o que está promovendo esse sintoma naquela criança? Que tipo de ansiedade ela está enfrentando? O que está gerando essa ansiedade nela?

 

Luciana: Você também é analista de crianças e adultos, qual o lugar da psicoterapia no tratamento das crianças?

 

Dra. Thereza: Vejo como um lugar central, especial, pois embora os remédios ajudem a tratar os sintomas, na verdade eles não ajudam a desenvolver recursos internos que são o que verdadeiramente habilita as crianças a superar suas dificuldades.

 

Luciana: O que é o déficit de atenção? Qual o tratamento?

 

Dra. Thereza: O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um diagnóstico psiquiátrico que se baseia em tabelas que apresentam vários sintomas ligados à desatenção, vários ligados à hiperatividade e dos quais para o diagnóstico a criança deve apresentar seis ou mais deles. Quando se faz esse diagnóstico muitas vezes o remédio escolhido é a Ritalina. Entretanto, novamente aqui chamo a atenção para a importância de uma avaliação criteriosa que nos permita um contato mais profundo e uma visão dinâmica do que se passa com a vida emocional da criança.

 

 

 

 

Escrito por Luciana Saddi às 14h15

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Luzes do Subúrbio

 

Pouco resta de Santo André como subúrbio operário; pouco resta dessa mesma característica, na Mooca, no Cambuci, no Ipiranga. Pouco resta, na verdade, do passado da cidade de São Paulo e das outras cidades em seus arredores, em razão, exatamente, do seu vertiginoso desenvolvimento econômico. Não houve tempo, tranquilidade e, consequentemente, critério para conservar: tudo foi transformando-se, desfazendo, desfigurando.

 

Quarto Centenário, Ipiranguinha, Grupo Velho, Largo da Estátua, Casa Tókio, Belettato, Cine Carlos Gomes... sons de nomes ( entre outros), de lugares, logradouros e estabelecimentos comerciais  de Santo André, a maioria já inexistentes. Esses nomes provocam nostalgia nos moradores mais antigos, por esse poder de evocar, insuperável, das palavras.

Para mim, além dos nomes do centro velho de Santo André, ficou na retina a imagem das vilas operárias, “do outro lado da estrada de ferro”, como nos referíamos às nossas vilas; mocinhas de blusa e saia rodada, namorados no portão, jardins singelos, ruas de terra batida — o corte na terra, no saibro, das áreas terraplanadas: vermelho, laranja, amarelo; meninos jogando futebol. A onipresença das fábricas. Formas e cores trazidas para o espaço pictórico dos meus quadros. Pintei-os do meu jeito, partindo de formas geométricas coloridas, desenhando dentro delas, direto, com a ponta de um pincel redondo, delineando e desmanchando, superpondo camadas fluidas e transparentes de novas cores — como numa aquarela— até o empaste final em algumas partes.

Reúno nessa exposição, também, alguma coisa do início dessa abordagem, incluindo os dois quadros que retratam as Rhodias, (pertencentes ao acervo do Museu de Santo André). As pinturas atuais fecham a tentativa artística de fixar luz, sob a qual correu a minha infância no subúrbio operário; homenagem singela à vitalidade da nossa experiência naqueles inesquecíveis anos cinquenta.

Dedico esta exposição à memória do meu pai, Paulo Rodrigues de Souza; que trabalhou na montagem das indústrias de Santo André e depois dentro delas; que aventurou-se, vindo com a família do interior de São Paulo para trabalhar no  ABC.

Estendo a homenagem ao meu mestre João Rossi, que contribuiu na formação de tantos artistas, entre eles, João Suzuki, Hans Grudszink e Paulo Chaves, cujas vidas e obras ficaram ligadas à cidade de Santo André.

Edgard Rodrigues

Algumas imagens da exposição:


http://i1169.photobucket.com/albums/r501/edgardrodrigues/Pintura_11.jpg
http://i1169.photobucket.com/albums/r501/edgardrodrigues/Pintura_5.jpg
http://i1169.photobucket.com/albums/r501/edgardrodrigues/Pintura_10.jpg
http://i1169.photobucket.com/albums/r501/edgardrodrigues/Pintura_4.jpg
http://i1169.photobucket.com/albums/r501/edgardrodrigues/pintura_1.jpg

Edgard Rodrigues, artista plástico e escritor, nasceu em Santo André, estudou Letras Vernáculas na Universidade de São Paulo e pintura com João Rossi. Foi professor nos cursos de Comunicações e Artes da Universidade Mackenzie, Escola Panamericana de Arte e Escola Oficina de Artes.
É autor dos livros didáticos “Praticando a Arte - Desenho e Pintura” e “Entendendo a Arte - Desenho e Pintura”, Editora Moderna.

 

Vernissage
01/02/2012 (quarta-feira) das 19h30 às 22h00
Aberto ao público de 02/02 a 28/02/2012
de segunda a sexta das 8h30 às 16h30 e sábados das 9h00 às 14h30

Sala Especial do Museu de Santo André
Dr. Octaviano Armando Gaiarsa
R. Senador Fláquer, 470
Fone: (11) 4438.9111
Estacionamento gratuito pela Rua Gertrudes de Lima, 499 - Entrada gratuita




Escrito por Luciana Saddi às 23h34

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Timidez e nervosismo na infância

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A timidez e o nervosismo indicam forte expectativa de perseguição - tão forte que mesmo sem se dar conta, algumas dessas crianças conseguem arrumar os fatos para que familiares, colegas ou professores se tornem seus perseguidores reais.

Devem passar por um diagnóstico psicológico os casos em que pais e professores não conseguem contornar a dificuldade.

A criança que sente medo - um medo que não a atrapalha - está mais saudável do que a que não nunca o sente, porque tem mais contato com seu mundo interno e suas fantasias.

Querem saber mais? Ouçam o podcast na Rádio Folha:

 

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/1036035-luciana-saddi-timidez-na-crianca-pode-indicar-perseguicao.shtml

Escrito por Luciana Saddi às 14h50

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Reparação

 

 

Internauta: Fui uma adolescente muito ruim pra minha mãe. Hoje aos 29 anos vejo que, inconscientemente, a culpava pela separação que ocorreu quando eu tinha 10 anos. Sentia uma vontade enorme de me libertar do controle dela e me ressentia por ela ser uma mãe tão legal. Não tinha motivo pra rebeldia, pois ela discutia sexo comigo, deixava meu namorado dormir em casa, proibia o que tinha que proibir, e fazia o possível e o impossível pra permitir aquilo que eu merecia.

 

Minha mãe não mereceu a filha adolescente que teve. Eu era agressiva, ingrata, me recusava a demonstrar carinho. Já adulta me mudei para fora do país, e nossa relação melhorou muito.

 

Há dois anos, de forma repentina, ela faleceu. Não tive a chance de lhe pedir desculpas. Sinto-me muito mal por tudo que causei a ela. Isso me sufoca, me atrapalha, aparece muito em meus sonhos (pesadelos), e acaba com a minha autoestima. Fui injusta e me penitencio por isso. O remorso e o arrependimento quase me levaram a uma crise de pânico. Os fantasmas estão pesando demais e não sei como lidar com isso.

 

Luciana: uma grande psicanalista inglesa, chamada Melanie Klein, se deu conta que as crianças odeiam e agridem (principalmente em fantasia) a mãe quando se sentem frustradas. Os pequenos consideram que a mãe (ou seu representante) é a responsável pelo desconforto e dor que sentem - chegam a pensar que ela causou esse mal estar de propósito. Quando crescem, percebem que aquela mulher odiada – uma espécie de bruxa - era a mesma que cuidava delas, alimentava-as e procurava lhes aliviar o sofrimento. Essa percepção (nós psicanalistas, chamamos de integração) causa uma enorme dor. Crianças que chegam a esse grau de integração se culpam e se deprimem.

 

Há, basicamente, duas maneiras de lidar com a culpa:

 

1-     Reparação: reparar o mal que foi feito, reconhecer, mesmo que tardiamente, os cuidados recebidos. O amor, a ajuda emocional e material podem servir como uma espécie de compensação. A Justiça pode ser entendida como uma forma social de reparação também.  

 

2-     Punição: a autopunição é um meio fantasioso e falso de reparação. Alivia, temporariamente, a culpa do agressor,  privando-o de viver com prazer e de desfrutar as conquistas, mas nada faz pelo bem de quem foi agredido.

 

Portanto, se punir da forma como você vem se punindo não resolve a questão. É preciso encontrar um jeito de reparar essas feridas em você e em sua mãe. Há inúmeras formas de honrarmos nossos mortos.

 

Sua dor e recusa em viver plenamente causaria enorme tristeza em sua mãe. Afinal, que mãe quer ver o filho sofrer?

 

A infelicidade alivia a culpa, mas perpetua os castigos - ela mesma é a punição. Me parece que você castigou sua mãe pelo fim do casamento, que você usa o castigo como forma de educação (talvez esse seja um traço da personalidade de seu pai).

 

Basta um pequeno gesto de amor e de reparação para que o mau filho seja perdoado pela boa mãe.

 

XIII

 

uma idéia fixa

uma lenda infantil

uma ruptura

 

o sol

como um grande animal escuro

 

não há mais que eu

não há o que dizer

 

 

Alejandra Pizarnik, numa coletânea "Los pequeños cantos", publicada na revista "Árbol de fuego", N45, Caracas, 1971.

 

Poema escolhido e traduzido por Ana Tanis, psicóloga, bacharel em letras e curadora de poesia desse blog.

,
Imitação da vida, filme de Douglas Sirk. Drama em que a filha da empregada criada pela patroa, nega sua origem. Na juventude é frequente agirmos de forma repugnante, o arrependimento - sinal de maturidade - é uma terrível dor.

Escrito por Luciana Saddi às 10h42

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Meu país – entrevista com o cineasta André Ristum

 

Meu país é o primeiro longa de ficção de André Ristum. Ele apresenta uma emocionante jornada de reencontro familiar, que sentencia a transformação dos personagens. Um filme intimista, que encara a complexidade dos laços familiares – sem nenhum moralismo. 

 

Meu país dialoga com o cinema europeu e com o cinema argentino. Nele não há a violência, a pobreza ou a favela tão bem retratada pelos nossos cineastas consagrados. É um filme radicalmente interiorizado, capaz de expor e despertar sentimentos sutis.

 

Além da direção impecável de Ristum, que trabalhou com Bertolucci na Itália, o filme conta com um elenco estrelado: Rodrigo Santoro, Cauã Reymond e Débora Falabela.

 

Luciana: André, por que o cinema?  

André: Cinema esteve na minha vida desde cedo. Meu pai, Jirges Ristum, e meu padrasto, Ivan Isola, trabalhavam como assistentes de direção na época (trabalharam com Rossellini, Antonioni, Gianni Amico, Bertolucci, Glauber Rocha...), e eu visitava sempre os sets de filmagem. Fazia parte do meu dia a dia. Um dia, aos 3 anos e meio, disse que queria fazer um filme. Insisti tanto, até quando o Ivan me falou pra escrever o roteiro. Ditei pra ele algumas sequencias e rodamos o curta em Super 8. “Sombumbo” era uma sequencia de imagens, pessoas e objetos marcantes pra mim no momento. Finalizamos o curta e até exibimos numa sessão de jovens cineastas num festival em Roma. Mas após este curta tive uma vida normal e até busquei outros estudos e outra carreira. Voltei pro cinema bem mais tarde.

Luciana: Nos fale de sua trajetória.

André: Em 1990 estava estudando Administração na Bocconi, em Milão. Conheci uns produtores amigos do Ivan e fui convidado para trabalhar com eles. A partir daí foi um caminho natural para desanimar da carreira de administração e mergulhar na do cinema. Em 95 fui assistente de direção do Bertolucci, em “Beleza Roubada”, e não parei mais. Dirigi meu primeiro curta em 97 no Brasil e tantos outros seguiram até rodar meu primeiro longa de ficção. Ao todo foram 6 (Pobres por um dia, Homem voa?, De Glauber para Jirges, 14 Bis, Nello’s e o longa documentário Tempo de Resistência).

Luciana: O que te levou a realizar esse filme?

André: Acho que a semente deste filme vem de uma minha necessidade de contar a historia de alguém que volta para um país muito tempo depois, um caminho que  percorri na minha vida. Quase como um filme necessário para afirmar a minha sensação de pertencimento a um lugar. E neste caso falou muito mais de uma sensação de resgate de origens e raízes, do que de um país do ponto de vista sócio-político. Trata-se de um país afetivo.

Luciana: Como se deu esse processo?

André: A partir do meu argumento, desenvolvi algumas versões sozinho, outras em parceria com o roteirista Octavio Scopelliti e outras com o roteirista Marco Dutra. Foi um longo trabalho e quase 2 anos, e 12 versões do roteiro. O roteiro final ainda foi muito modificado nos ensaios com os atores, na filmagem e posteriormente na montagem, com o montador Paulo Sacramento.
 
Luciana: Que País é esse?

André: É um país do coração, um país afetivo. O país que temos dentro. Brasil sempre significou minha família, minha raízes. Algumas pessoas estranharam a ausência do colorido típico brasileiro ou a desigualdade social. Mas a intenção sempre foi falar apenas do resgate familiar e afetivo, focar o filme nisto.

Luciana: Como foi trabalhar com esses atores?

André: Foi uma experiência incrível e muito gratificante. Trabalhar com atores tão competentes e talentosos como Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Debora Falabella, Anita Caprioli falando apenas dos papéis principais, mas sem esquecer as participações mais que especiais de Paulo José, Nicola Siri, Edu Semerjian, Stephanie de Jongh, Luciano Chiroli, Norman Mozzato e Homero Kossac - foi para mim um grande presente. Todos deram um pouco de si, e acrescentaram aos personagens. Foi um trabalho de muito coração e dedicação de todos. Um dos pontos altos do filme.

Escrito por Luciana Saddi às 11h24

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falecomigo Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Foi titular da coluna Fale com Ela, publicada na Revista da Folha.


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